BRICK BY BEAT ENTREVISTA: A.K.A. LINDA GREEN

01/02/2019

Uma chamada por Skype que se iniciou com a intenção de definirmos os pontos abordados desta entrevista, tomou o rumo de uma conversa confortável e divertida de quase duas horas. Foi nesse ritmo de descontração que fomos apresentados à Cecília Lindgreen AKA Linda Green, emergida das noites de Brasília e há dois anos situada em São Paulo. 
Em nossa primeira Entrevista de 2019 trazemos uma forma diferente de conhece-la: um bate-papo à fundo, de forma leve e fluída, daqueles que você tem a impressão de uma certa identificação de tempos. Um elo - além do "calor" dos sets dessa DJ versátil que deixa qualquer um boquiaberto. *É necessário carregar muita personalidade e pesquisa para construir um repertório que mistura diversos estilos de forma tão ágil como ela faz e o resultado disso é: identidade. 

O mais curioso é saber que, segundo a própria Cecília, sua personagem Linda Green vem para contrapor sua personalidade séria, caseira, e até mesmo expressão fechada ao tocar. No fim das contas, as duas são compostas por uma única persona receptiva e cheia de facetas ecléticas reafirmadas em seu trabalho por meio da abertura para diversas vertentes musicais que trazem mixes intensos de sensações. Sem dúvida, a forma mais efetiva para quem quer conhecer Linda Green ou o seu estilo irreverente é simplesmente ouvi-la e deixar-se levar pelo seu tom envolvente, dentro e fora das tracks.


Conta para a gente como você começou na música e depois na música eletrônica? Qual é a sua trajetória?

Comecei a trabalhar com evento quando eu tinha 19 anos. Eu fazia ciências da computação na UnB e não gostava! Desde o primeiro dia em que pisei naquele lugar pensei "cara, eu não tenho nada a ver com esse curso", mas fui ficando... Fiquei por 5 anos - porque eu achava que ia me dedicar e gostar, mas a cada semestre eu detestava mais. No meio desse caminho, eu comecei a me envolver com eventos da universidade, com shows, com festa junina, produção. Então com 19 anos, eu estava vendendo ingresso de festa, sendo promoter, produzindo churrasco do curso, fazendo bar de festa. Trabalhava em qualquer evento que me chamassem. Foi assim que eu me envolvi com a cena de Brasília. A vontade de tocar surgiu em 2007, mas foi só em 2014 que um colega que organizava uma festa pop em Brasília chamada Moranga me chamou para tocar numa ocasião e eu aceitei na hora, mesmo sem ter experiência. Depois, entrei em contato com amigo que ia fazer um churrasco durante a Copa, junho de 2014, perguntando se eu podia tocar porque haviam acabado de me chamar pra tocar numa festa e eu nunca tinha feito isso antes! Foi aí que eu baixei o Virtual DJ no meu computador. Toquei na festa e foi incrível! Nesse começo tinha trap, pop, indie rock... tudo que você imaginar, e eu não tinha noção de beat match então eu só fazia umas seleções completamente ecléticas e foi assim que comecei a tocar! Depois baixei o traktor piratão e fui comprando equipamento, fiz um curso de dj e continuei pesquisando... E aí eu falo que graças a Deus apareceu o Virtual DJ! Que o pessoal 'gonga', mas eu falo: "Virtual DJ foi o que me deixou virar DJ!" - é gratuito e você vira dj no teclado, no mouse... É muito básico, mas foi assim que eu comecei! Antes disso, eu ficava botando som de rock nas festinhas dos amigos pelo WinUp...


E olhando para sua transição do começo até aqui, o que você vê enxerga que mudou e o que deu certo?

No começo eu gostava de pesquisar/tocar hip-hop pop, mas aí fui vendo que não era exatamente onde eu gostava de estar. Não era um meio que eu queria frequentar e foi quando eu decidi que ia procurar outra coisa para tocar. Procurar um estilo que e tivesse mais a ver comigo. Eu gostava muito de Downtempo, sempre gostei muito de música devagar, até hoje! E aí comecei uma festa em Brasília chamada Delírio Tropiquente, e era: Brasilidade! Latinidade! Muita música orgânica. E foi quando comecei a investir mais em pesquisa e conhecer o que tinha na música da América Latina. Tudo o que tinha uma identidade forte referente a isso.


(...) "Eu escutei a mixtape de um cara chamado JP Soul e falei "Caralho, é isso que eu quero tocar!". 

É muito interessante você falar tão abertamente sobre um sua preferência pelo Downtempo apesar de seus sets serem mistos e com uma explosão de sons ecléticos, o que os deixam em uma singularidade peculiar. Como foi desenvolver a sua música em Brasília?

Em Brasília, tocar esse tipo de música era muito complicado na época. Eu não tinha muitas opções, então eu tocava em bar, feira, evento de moda, aniversário... Minha pesquisa era de Global Bass, voltada para ritmos latinos tradicionais. Eu tentava me encaixar nos eventos de funk e não tinha uma boa recepção do publico... não foi fácil. A minha sorte é que eu era servidora pública, ou seja, eu tinha um salário, sabe? Então eu conseguia investir em equipamentos, comprar música e comprar passagem para vir tocar em São Paulo. Foi quando eu comecei a minha carreira de fato: vir pra São Paulo, conhecer mais gente... a correr atrás das festas para poder tocar, e ai nessa época (2015) eu toquei em Madrid - o convite veio de um DJ que conheceu meu som pelo Soundcloud. Desta mesma forma também toquei em Buenos Aires, no começo de 2016 e eu fui me desenvolvendo. Fiquei nessa cena de música orgânica e global bass durante bastante tempo... E foi me enchendo o saco porque era uma cena ainda muito masculina - hoje tá melhorando bastante, mas na época... Foi natural migrar para outros estilos porque o que eu tocava já era Deep house, e eu já escutava bastante Slow house... E um dia, no SoundCloud, eu escutei a mixtape de um cara chamado JP Soul e falei "Caralho, é isso que eu quero tocar!". E foi quando eu comecei a pesquisar Darkdisco e Indie Dance e resgatar referências de Disco, umas coisas mais Uptempo. Foi quando eu estava mudando pra São Paulo, então cheguei aqui com essa estética - quando comecei a tocar o pessoal não me conhecia, ainda que eu já estivesse na cena há dois anos. Então digamos que o que deu certo foi essa estética do house/dark disco, mais puxado para o indie dance que, de qualquer jeito, junta muitas influências que tenho: synth wave, synth pop, pop 80´s, disco, soul... E sou muito adepta ao pop! Sempre adorei misturar: musica velha com música nova, um monte de estilo diferente... Não abro mão disso.


Você passou por situações que sua música teve que provar a que veio por estar numa cena masculinizada?

Eu sinto que eu já tive mais necessidade de provar que eu era capaz que hoje em dia. Especialmente no começo, antes de aprender a técnica, eu senti muito menosprezo por parte de colegas em relação a minha capacidade. Eu levei isso como um desafio para me superar, aprender mais e aprimorar meu trabalho artístico. Hoje em dia, eu ainda sinto que existe um certo questionamento em relação a capacidade e habilidade das mulheres, não só na profissão de DJ. Ainda vejo algumas pessoas reparando mais e sendo mais críticas com o trabalho que as mulheres fazem, tanto na técnica como na seleção. Por mais que tenha melhorado muito desde que eu comecei a tocar, ainda sinto que é um ambiente predominantemente masculino e muitas vezes intimidador.


Como se deu a transição da vida de Brasília (trabalho, etc) para a de SP?

Foi logo depois do Golpe! Era insuportável trabalhar e morar em Brasília. A opressão aumentou muito, eu não conseguia tocar, não sentia que meu trabalho artístico era respeitado e meu ambiente de trabalho como servidora não favorecia a situação. E como eu trabalhava há 3 anos, eu poderia tirar uma licença. Juntei uma grana e saí... E se um dia der tudo errado eu ainda posso voltar para o trabalho de servidora (risos).


Teve alguma situação assim que você se recorda de um momento bem difícil?

Já passei por algumas situações difíceis, mas momentos como ter equipamento furtado durante ou após apresentações foram os que me fizeram chegar mais perto de desistir. Já aconteceu mais de uma vez.


(...) é necessário treinar muito o ouvido para desenvolver um critério estético para selecionar música, eu entendo que é isso que forma a identidade do artista, e isso não tem certo ou errado, é gosto. 

Mesmo parecendo pouco tempo de carreira (são quase 5 anos, morando em São Paulo apenas dois). A quem você atribui o seu "preparando seu terreno" até chegar a tocar em lugares como Argentina, Espanha?

Em 2016, conheci a Andrea Gram. Ela já era minha aliada. Conheci também o pessoal da Voodoohop e em 2017 a Joana Franco, produtora de uma festa chamada Dsviante aqui em São Paulo, ela gostou muito do meu som e a gente se deu muito bem. Um mês antes de eu me mudar para cá, eu toquei no aniversário da Amanda Mussi e quem estava lá gostou. Quando me mudei, a Joana fez essa festa onde eu toquei por 4 horas. Foi quando as clubbers  conheceram o meu som e então a Joana foi minha primeira booker. Ela me ajudou muito! Fora isso eu sempre ficava atrás de criar podcast, movimentar... e deu certo. A Joana conseguiu atingir as pessoas certas na hora certa, e eu fui mantendo o ritmo.


Em relação a preparação e pesquisa: o que você acha que é um passo básico para uma pessoa dar quando resolve virar dj?

Eu sei que pode parecer óbvio, mas o primeiro passo é gostar de música! Ter prazer em ouvir música, ter curiosidade sobre como a música surge, qual a relação do ser humano com a música ao longo da história. Ter vontade de entender a cultura, seja lá qual gênero musical for a pesquisa, procurar saber sobre as raízes do que está sendo ouvido hoje. E treinar muito o ouvido para desenvolver um critério estético para selecionar música, eu entendo que é isso que forma a identidade do artista, e isso não tem certo ou errado, é  gosto.


E como funciona o seu método de pesquisa atualmente?

Muitas vezes, eu começo uma pesquisa de uma música que fica na minha cabeça, aí eu vou para o youtube ouvir, aí eu começo a procurar remixes, edits, vou achando novos artistas, tento relacionar o que eu achei com #. Daí eu parto para o bandcamp, o beatport e em muitos casos para o Soulseek. Sempre uma coisa leva a outra.


Além das referências musicais, o que mais costuma te inspirar? Seja na arte ou em experiências?

Morando em São Paulo, eu tento ir regularmente a exposições, esses momentos abrem a cabeça para outras possibilidades estéticas que conversam com o meu trabalho. Existe uma oferta enorme de cultura na cidade para aproveitar. Fora isso, eu procuro me conectar com a água sempre que eu posso, praia ou cachoeira, acho essencial para dar um efeito "reset" na energia e ter mais gás para trabalhar.


E sobre você se montar nas suas apresentações?

Desde o começo, da Delírio Tropiquente, eu gostava de usar maios e acessórios de formas diferentes. Talvez porque quando eu tô tocando eu fico com uma cara muito fechada... fico muito concentrada. E além disso, acho que é uma forma de ter um alter ego mesmo! Desvencilhar da Cecilia, ser uma outra pessoa, sabe? A Linda Green para mim é extrovertida, pra cima... Várias vezes, o que não sou. Eu gosto mesmo de ficar em casa, assistir Netflix, masterchef... A Linda então é uma personagem. É uma coisa meio cênica e pra criar um impacto visual. Tenho várias referências de diva pop, e acho que é o seu momento ali, e é foda investir num visual e ficar glamorosa! No meu dia a dia ando de moletom e chinelo, cara lavada... Ali então é o meu momento. Na DGTL fiquei 3 horas me maquiando. Foi a maior montação da vida! Falei pra todo mundo que era minha festa de 15 anos (risos). Queria ter essa condição da DGTL em todas as apresentações! Mas hoje já melhorou um pouco, comprei umas perucas, um cílios melhores...

Linda Green na DGTL 2018
Linda Green na DGTL 2018

Sobre aperfeiçoamento e digamos, expansão do seu currículo na música, há algo que você tenha muita vontade? Seja pra ser realizado em breve ou mais pra frente?

Nesse momento, eu quero ter maturidade para lançar minhas produções musicais. Meu primeiro contato com produção musical foi em 2015, sampleando e remixando. Nessa época, eu fazia muitas colaborações e tinha muita vontade de produzir. Desde 2017, eu não soltei mais nenhum remix ou produção. Meu foco agora é voltar a sentir paixão por produzir e ter a segurança de lançar.


E o que podemos esperar da Linda Green em 2019?

Esse ano eu quero investir mais na parte de produção musical e passar a incorporar a minha coleção de vinil nas minhas apresentações. Fora isso, minha maior aposta de 2019 é no crescimento do projeto BA-TA-LHA, onde sou residente no Sesc 24 de maio. São apresentações bimestrais de batalhas entre estilos de dança completamente distintos. Se consolidou no último ano e tem tudo para crescer, é a minha menina dos olhos.


Vimos muitas fotos de gatinho no seu facebook. Você é louca pelos pets, em especial pelos bichanos?

Eu sou viciada em gatos, tenho 2 em casa e mais 1 gato da pessoa com quem eu divido apartamento. Sou muito Felícia com eles.


Para acompanhar Linda Green:

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