Aniversário do Coletivo Plano firma conquista do espaço público às festas de rua em Porto Alegre

24/08/2019

Imagem por: Pyetra Salles

Tarde de muito calor no inverno de Porto Alegre. No dia 20 de julho tinha início a festa do coletivo Plano, em comemoração aos seus dois anos de criação. Nesse período, paralelamente ao desenvolvimento do cenário independente, o coletivo se tornou parte de uma reação que sempre insistiu no desestruturar da repressão por parte do poder público, através das festas de rua da cidade.

Atualmente, com a repressão forte que vinham sofrendo para realizar seus eventos, Plano e outros coletivos entraram em acordo com os órgãos responsáveis a fim de uma legalização por parte destes, e iniciaram um novo ciclo.

"Acho que a rua permite uma pista mais democrática. As festas fechadas, que precisam de ingressos para entrar, limita o público, por diversas questões, acesso, condições financeiras, deslocamento, preços de bebidas... A festa de rua rompe totalmente isso." - Mari Gonçalves, 26 anos, mestranda em Psicologia Social na UFRGS e DJ nos coletivos Arruaça e Turmalina.

Imagem por: @olhomecanico

Uma reunião que uniu representantes de coletivos de festa de rua e o departamento da Secretaria Municipal de Desenvolvimento Econômico (SMDE) de Porto Alegre, resultou em um acordo: os eventos estariam autorizados a acontecer em espaços públicos de forma gratuita durante à tarde, seguidos de um after com venda de ingressos em espaço fechado - modelo já usado em outras capitais do país, como São Paulo e Belo Horizonte.

Essa conquista fundamenta não apenas uma comemoração pelo aniversário do coletivo, mas também, o resultado de um compromisso que se firmou em sua criação. O Plano nasceu disto: o propósito de dar espaço para novos artistas apresentarem seus trabalhos e o desejo, de todos os integrantes, de ocupar a cidade. A felicidade veio como resposta "à diversidade de indivíduos, celebrando seus corpos em um manifesto artístico, presentes nos eventos, aliados ao fato de ser gratuito, acessível e democrático." comenta Fernanda Rizzo, uma das fundadoras do núcleo que hoje é formado também por Fernando Ribeiro, Pyetra Salles, Sérgio Barsotti, Marcos Martinelli, Gabriel Scorza e Natasha Valenzuela.


A festa

"Eu já fui em algumas festas, mas nenhuma como a Plano, especialmente a de 2 anos. Nunca gostei muito de música eletrônica, nem achei que aguentaria um rolê que durasse no meio de uma tarde até a manhã de outro dia. Mas lá estava eu registrando uma das festas mais loucas que vi na minha vida. Me apresentaram o coletivo como um grupo que, através da festa de rua, busca ocupar o espaço público em um ato político misturando a luta social e o entretenimento em um ambiente cheio de gente frenética. E como eram frenéticas. - Vinicius Luz, 20 anos, fotógrafo.

Quem chegava à Praça dos Açorianos, localizado no Centro Histórico de Porto Alegre, se deparava com uma estrutura toda pensada em receber pessoas que fizeram parte deste projeto e as que estavam por vir: banheiros químicos e pallets espalhados pelo local, brechó, foodtruck de cerveja artesanal e bares de ambulantes locais com diversas opções de bebidas e comidas.

Imagem por: Vinicius Luz

Estamos no caminho, mas gostaria que a Plano fosse uma pista mais negra. Eu vi um front majoritariamente feminino, acho isso muito massa, fantástico, mas também acho que a galera preta deveria ter mais acesso à informação de que a festa esteja rolando. Poderíamos estar viabilizando, envolvendo a galera preta para tocar, para vender seus trabalhos no comércio. Chamando os movimentos da população de rua... No geral, acho que foi tudo perfeito, amei a experiência, quero muito mais!" - Mari Gonçalves, 26 anos, mestranda em Psicologia Social na UFRGS e DJ nos coletivos Arruaça e Turmalina.

Uma das ações realizadas no evento foi a arrecadação de agasalhos, doados pelo próprio público. Havia também o stand do Coletivo Lótus de Redução de Danos, sempre presente nos eventos do Plano com a intenção de promover um espaço de informação através do diálogo sobre a questão das drogas, refletindo sobre os possíveis riscos e estratégias de cuidados.

Foram confeccionados 101 kits sniff para distribuição no evento - um material que a própria Lótus confecciona: tem camisinha, canudo para uso próprio e um zip lock para guardar tudo - e atendimentos foram prestados a usuários que tiveram ocorrências durante a festa.

No line-up de comemoração, uma grande ideia: Deborah Blank b2b Iago Gutierre, Technovinho b2b Marcelulose, Fritzzo b2b Py Salles, Nalu b2b Posada, KIKA b2b Mari, DJ Mtn9090 b2b Barsotti - uma mescla dos residentes do Plano junto a artistas de outros núcleos da cidade - como os da Arruaça, que, em sua última festa promovida, tiveram suas apresentações canceladas por repressão das autoridades municipais.

Foi uma baita oportunidade participar do processo da festa de aniversário de 2 anos do coletivo plano, principalmente pela troca/experiência que rolou com toda a galera que estava envolvida; desde os coletivos de rua/produção, quem tocou, fornecedores, as cervejarias independentes, ambulantes, etc. pois, foi um passo importante para fortalecer conexões que, inclusive, já estavam pré-estabelecidas. Assim, alimentando esse sistema que é necessário para gerir e fazer acontecer uma festa de rua - Paula Posada, 26 anos, produtora do coletivo Arruaça, festa Base, Goma rec e estudante Bacharel em Música Popular na UFRGS, residente do Projeto Concha

Imagem por: @olhomecanico

Como prometido, o evento na rua se encerrou às 22h, mas o after não faltou: às onze, um público um tanto quanto disposto seguia para o Oculto, bar da cidade. Foi o primeiro after organizado pelo coletivo, com objetivo de arrecadar o dinheiro que torna possível a realização dos eventos na rua.

O formato de festa na rua e after em local privado foi tudo porque querendo ou não a gente sabe como é difícil conseguir que as pessoas paguem pelo serviço que a gente presta a elas. Não é fácil e nem barato fazer festa e acredito que elas conseguem conscientizar a galera em apoiar minimamente. Vejo que elas continuam nesse processo de evolução e fico muito feliz porque acompanho de perto e sei como é punk. - Isabella Pereira, 23 anos, produtora de moda e performer.

Ao todo, foram 18 horas de festa, mas a conquista política e espacial perduram por muito mais tempo. Quem passar pelas de Porto Alegre em que ocorreram as festas do coletivo nesses dois anos de criação, lembrará de algum fato ou memória, ou que dançou ou encontrou amigos, ou até mesmo de ter passado em frente e visto toda aquela gente, ali, dançando ao ar livre, num espaço público e que pertence a todos - pela conquista delas. Esse é o Plano.

Imagens por: Vinicius Luz e @olhomecanico

Dá vontade, né? 

Pois hoje (24), pode ser a sua oportunidade de conhecer (ou matar a saudade, desde a última festa) o Plano. Em local fechado, eles recebem especialmente, o núcleo paulistano Cereal Melodia para sua primeira aparição fora das ondas do rádio. Desde o seu lançamento, a Cereal vem colecionando belos sets em suas plataformas e dando voz a programas que visam discutir música e os contextos em que elas estão inseridas. 

O som então, é comandado pelos artistas de ambos os coletivos. 

Ingressos antecipados aqui.

Para acompanhar o Coletivo Plano:
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*Imagem do cabeçalho por @olhomecanico