BRICK BY BEAT ENTREVISTA: ALEC ARAUJO

29/11/2018

Alec Araujo é detentor de uma carreira respeitável e conquistas desejadas por djs e produtores que estão na estrada do cenário eletrônico. Defensor do estilo Progressive House, fez história no Sul do país, mas tem sua arte reconhecida em vários cantos do mundo. Com um ano bastante produtivo, Alec sabe quem é a verdadeira responsável por sua trajetória: "Devo tudo à música. Sou apenas uma ferramenta". Ela, responde de maneira recíproca lhe vindo cada vez mais, constantemente. E com base nessa troca, fizemos a nossa entrevista. Ouça e deixe-se levar também. 


Olá Alec! É um grande prazer tê-lo conosco aqui na Brick. Você possui uma bagagem de mais de vinte anos de carreira, é um dos pioneiros no Brasil, principalmente no estilo Progressive House. Conta para a gente: de onde surgiu esse interesse pela música e posteriormente, pela música eletrônica?

Olá pessoal da Brick, eu que agradeço! O contato com a música sempre foi desde pequeno. Se ouvia bastante Disco Music em minha casa, era impossível não cantarolar alguma canção durante qualquer parte do dia.

O interesse pela música eletrônica veio em seguida. Eu tinha uma vida praticamente "normal" antes de ter assistido um DJ (o França, amigo e conterrâneo) tocar pela 1ª vez e perceber que era o que eu queria ser. Morava na fronteira com a Argentina, e muitas das músicas bacanas que eram tocadas nas rádios de lá, não tocavam nas rádios da minha cidade natal (Uruguaiana, Rio Grande do Sul). Então construí uma antena que captava melhor o sinal das rádios argentinas e pendurei no teto de minha casa. Minha diversão era gravar essas músicas, não importava a hora. Virei muitas madrugadas fazendo isso, ainda adolescente. Eu tinha várias fitas gravadas, todas com o tempo certinho de cada som anotado. O desafio maior era gravar as músicas da rádio sem a intervenção do locutor. Eu tinha um receiver e conectava a outro pra poder passar uma em cada. Com isso, logo vieram os aniversários na vizinhança e o convite pra tocar entre meus amigos. Mas tudo foi acontecendo sem planejamento algum. Só fui seguindo os sinais.


Pensar em você e na sua música é pensar no Progressive House. Mas quais são os outros estilos dentro da música eletrônica ou não, que você gosta de ouvir, explorar e até mesmo trazer para seu campo de produção?

Amo as músicas produzidas na década de 70 e 80 e isso ajuda bastante pra criar. Por ter nascido na fronteira oeste do Rio Grande Do Sul, como já disse, tenho toda a influência espanhola sempre presente. Gosto muito de House e Techno, mas sou da opinião de que música boa não tem rótulo nem estilo.


Exatamente. Também achamos que um dj e produtor não podem ficar preso a estilos. Porém, como mencionamos, você não esconde de ninguém seu amor pelo Progressive House e o seu esforço para que ele chegue aos ouvidos de mais e mais pessoas. Sendo um bom conhecedor do assunto, como você enxerga a evolução do estilo? Você acha que o Progressive House tem recebido uma maior atenção nos últimos tempos? Ou sempre esteve ali e na verdade faltava um melhor olhar para aprecia-lo?

Progressive é uma maneira de tocar e do artista se explorar tanto nas mixagens das músicas, quanto na seleção de repertório e buscar a melhor sonoridade, fusão e transição entre elas. Sempre foi assim. O estilo em si sempre se manteve presente e crescente durante os anos. Embora a música mude, a maneira de se representar o estilo só se desenvolveu para melhor com o passar do tempo. A criatividade dos produtores para as músicas está cada vez surpreendendo mais e as obras feitas nos últimos anos me provam o quão madura essa evolução tem se mostrado. Se o estilo recebe maior atenção é porque certamente muitos produtores passaram a apreciar a maneira de criação e de sonoridade plena que só o Progressive possui e adaptaram à sua maneira de produzir. É questão de tempo também. As pessoas precisam de tempo para amadurecer em muitas coisas. Amadurecer musicalmente não é diferente.

Vale salientar que o Progressive House no Brasil ainda engatinha, enquanto na Argentina, voa. Há grandes produtores no mundo, mas a maior quantidade e os melhores do estilo estão lá. E eles possuem uma visão musical diferenciada. Criam tendências. Estão anos luz na frente. A grande maioria tenho como bons amigos e é uma aula vê-los tocar quando estou por lá. Temos muito ainda o que aprender com eles.

Progressive é uma maneira de tocar e do artista se explorar tanto nas mixagens das músicas, quanto na seleção de repertório e buscar a melhor sonoridade, fusão e transição entre elas.  - Araujo, Alec.

Quem acompanha suas produções, é possível observar uma identidade muito particular caracterizada por vibrações e movimentos. Você enxerga dessa maneira? Consegue ver essa sua identidade possível de ser distinguida em cada produção?

Não percebo. O que tenho notado ultimamente quando produzo é um desafio cada vez maior de criar músicas que deixem para o público que está ouvindo na pista um desejo de quero mais.


Como foi para você ao longo de sua carreira criar essa identidade e ver que essa era a fórmula?

Não teve fórmula. Eu fiz o que era necessário fazer, o que acreditava ser o mais correto. Na criação, eu sento e deixo a música falar por mim. Ela é responsável por tudo. Eu sou só a ferramenta. Franckie Knuckles (criador da House Music) falava algo muito bacana e que carrego comigo: "o dia em que você achar que é maior que a Música, você está acabado."

Acho muito interessante você se reinventar, sempre. Também acho válido você sumir de cena o tempo que julgar necessário pra isso. Cada pessoa tem o seu tempo para as coisas. O importante é você perceber o seu momento e estudar o próximo passo a ser dado, mas acreditar e fazer é o que fará toda a diferença.


Soubemos que recentemente você fez um novo remix para o APENAS Wolfgang Flür, do Kraftwerk. Explica para a gente como foi e o que representa esse trabalho.

O Wolfgang é um artista incrível. Sempre me surpreende. Ele me enviou um e-mail com um pedido especial para criar um remix de sua faixa "Zukunftsmuzik" (significa Música do Futuro), que ele fez em parceria com o pessoal do U96, de Hamburgo. Gostei muito de como o resultado ficou após a criação e edição e depois de pronta, o Cid Inc, que é um DJ/Produtor que admiro muito e amigo de longa data, masterizou. Ele é um gênio. Não tive dúvidas da qualidade do resultado após passar pelo estúdio e pelo talento dele.

A música será lançada somente ano que vem, em um álbum que se chamará "Colaborators", conforme as informações do próprio Wolfgang. Não têm palavras pra descrever o quanto representa. Sou grato ao Wolfgang pela oportunidade e crença no meu trabalho.

Acho muito interessante você se reinventar, sempre. Também acho válido você sumir de cena o tempo que julgar necessário pra isso. Cada pessoa tem o seu tempo para as coisas. O importante é você perceber o seu momento e estudar o próximo passo a ser dado, mas acreditar e fazer é o que fará toda a diferença. - Araujo, Alec.


Mas não é a primeira vez que você é "lembrado" pelo Wolfgang né? Soube que seu nome foi parar no livro dele...

Sim. Mais um presente surpresa vindo do Wolfgang. Ele fala em seu livro autobiográfico que foi contratado para uma apresentação especial pela esposa de um grande banqueiro de Londres, sendo este um grande fã do Kraftwerk e que "Neon Lights" era uma de suas canções favoritas. Wolfgang explicou ao casal que seu show era performado em 136 bpm e que a música selecionada era em um bpm extremamente baixo. Foi então que ele pensou na possibilidade de uma versão que encaixasse no show e então, por conta dessa busca acabou conhecendo meu trabalho, até o meu remix de Neon Lights. Wolfgang solicitou os canais para criar sua própria versão para suas apresentações e a partir daí fomos estreitando a amizade.

O bacana dessa história também foi perceber que meu remix rodou o mundo na mão de muitos djs e acabei conhecendo nomes importantes do cenário eletrônico e tendo meu trabalho como produtor reconhecido através dele. Recebi generosamente o feedback de inúmeros artistas que deram suporte na música. Hernan foi o 1º a tocar ela no Warung - bem no dia em que perdi meu voo para assistir a apresentação dele no templo. Fiquei arrasado. No domingo pós apresentação do mestre, logo de manhã, meu telefone toca. Era o Fabiano Feijó, dj e um dos meus grandes amigos. Atendi. Ele fala: "Meo, Hernan tocou teu remix. O club veio abaixo e eu gravei". Como se dorme depois disso? Nick Warren curtiu tanto que solicitou uma versão exclusiva pra ele, que fiz com muito prazer. Nos tornamos amigos. Ele é um dos maiores nomes que já conheci e mais gentis profissionais do ramo. Gosta de conversar e sabe aconselhar com sua classe inglesa. Não é todo dia que se recebe uma solicitação dessas, ainda mais um suporte com o selo Sir Nick de qualidade. Enfim, só agradeço ao Universo por tudo.

Nós aqui da Brick gostamos de pensar em uma pessoa que está começando a produzir e vê inspiração na cena musical em artistas como você. Qual o conselho que daria e que você gostaria de ter recebido quando começou sua carreira?

"Tenha paciência. Você vai conseguir o que busca."

Franckie Knuckles (criador da House Music) falava algo muito bacana e que carrego comigo: "O dia em que você achar que é maior que a Música, você está acabado." - Araujo, Alec.

Mesmo sendo uma pergunta clichê não podemos fugir a ela: quem são hoje os Djs e produtores musicais nacionais que devemos ficar de olho e nos quais você utiliza em suas produções?

Um DJ que sempre admirei a música é o Marky. Ele é um profissional que manteve toda a tradição e cultura DJ que conheço desde o início de sua carreira. Se o Brasil possuiu os olhos do mundo quanto à música eletrônica hoje (mais precisamente no Drum'N'Bass), muito se deve a esse grande artista.

Outro produtor que curto muito a qualidade das músicas e também é amigo é o Renato Cohen.

O Fernando Goraieb, Luciano Scheffer, Pedro Capelossi e Gui Milani também tiveram um ano muito bacana.

Tenho acompanhado o trabalho do Rigooni e do Spuri e tocado a música deles nas apresentações com grande reação do público. O Aspeckt e o Marcelo Oriano, de Florianópolis, estão produzindo algo mais conceitual, com uma qualidade excelente. Há o Gabriel Carminatti e Yudi Watanabe. Enfim, a lista é grande e cresce. Atualmente há ótimos produtores novos no Brasil e muitos ainda no anonimato. Fico contente sempre que recebo algum trabalho destes para ouvir e dar o feedback quando solicitado.


Relembre conosco: qual foi um dos momentos em que você viu que sua música aconteceu e te levou a uma sensação na qual você até tenta explicar, mas só consegue sentir?

Além do fato mencionado em que o Hernan tocou meu remix de Neon Lights, ano passado, também no Warung, ele tocou outra música minha. Ás vezes acabo sabendo pelos meus amigos quando isso acontece, porque nem sempre dá pra estar presente, mas dessa vez eu estava lá no club. Foi incrível. Eu não esperava. Devo muito a ele pois sempre foi um profissional presente, e apesar da enorme correria que tem, nunca me deixou sem alguma resposta sempre que precisei. Somos amigos e ele sempre me ajudou com conselhos sobre como conduzir minha música e carreira.

Outro momento muito importante aconteceu esse mês: fui convidado pela arquiteta e artista plástica Ana Mähler, para criar uma trilha sonora para a sua obra "Siga A Regra De Ouro", em exposição no Museu De Artes Do Rio Grande Do Sul (MARGS). É um outro braço de meu trabalho. Fiquei imensamente feliz de ver a experiência da interação da obra-público-música e grato pela oportunidade.

Alec na exposição de Ana Mähler, no Museu De Artes Do Rio Grande Do Sul (MARGS)
Alec na exposição de Ana Mähler, no Museu De Artes Do Rio Grande Do Sul (MARGS)

Ufa! Quanto trabalho! E por fim, o que podemos esperar de projetos para os próximos meses? O que você sente que está por vir e está se movimentando?

Me apresento dia 07/12 na festa Trip To Deep, aqui em Santa Catarina. É uma festa com um público maravilhoso e lindo e fiquei bastante contente com o convite.

A minha festa Fenix terá edições neste verão também em Florianópolis e será ótimo reunir os amigos pra confraternizar junto à música que amamos em um lugar próximo da natureza e do mar.

Além disso, sigo com minha apresentação mensal na Frisky rádio de Nova York, no qual completei um ano em 2018 e o número de ouvintes aumentou. Fico imensamente grato a cada novo seguido! (Confira aqui a notícia).

Esse ano foi excelente quanto a feedbacks recebidos de inúmeros artistas internacionais e nacionais sobre minha música. Ter lançado em labels de referência do Progressive foi extremamente gratificante. Dos lançamentos que tive ao redor do mundo, 2018 foi o ano em que tive mais releases: foram 22 ao todo entre originais e remixes e ainda têm mais agendados pra este ano. Mas para 2019 darei preferência para lançar mais originais que em 2018. O foco será muito maior na qualidade do que na quantidade do trabalho criado, sempre.


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