Da Selvagem ao destaque fora do Brasil, pesquisa musical e a recente carreira solo: entrevista com Millos Kaiser

18/08/2019

Foto: Luara Calvi Anic 

Era domingo à tarde e havia caído uma boa chuva, bem convidativa para aproveitar o resto da noite assistindo algo na tv, embaixo de uma coberta. Mais convidativo que isso, só a vinda de Millos Kaiser em um pequeno bar lounge no centro de Campinas, São Paulo. Haviam poucas pessoas, mas o clima aconchegante do ambiente dava um ar intimista e particular para os privilegiados que ali estavam. DJ e jornalista, o carioca Millos é reconhecido mundialmente por sua minuciosa pesquisa musical e por trazer em seus sets, tracks que casam completamente dentro da cena house e disco, entre brasilidades ou não. Ao lado de Augusto Olivani (Trepanado) formou o duo Selvagem e criou o selo Selva Discos, ascendendo a musicalidade brasileira aos grandiosos festivais pelo mundo. Este ano em carreira solo, Millos segue à frente de projetos pessoais como o Caracol bar, no qual é co-fundador, além de recentemente, ter voltado de uma tour pela Europa e ser uma das atrações anunciadas para a edição paulistana do Time Warp em novembro. Dentre tantos destaques, a versatilidade de Millos o acompanha em todos os lugares, seja em um bar campineiro, em festas undergrounds, ou pelo mundo. Na entrevista que se segue, Millos nos conta com muita simpatia e de forma bem completa sobre sua carreira: desde o início de sua inserção na música, passando é claro, pela Selvagem na noite paulistana e trazendo à tona alguns dos principais destaques desse caminho, como o espaço conquistado no Dekmantel, sua boa recepção fora do Brasil e a parceria com Maria Rita Stumpf.


Olá, Millos, é um imenso prazer ter você aqui conosco! Vamos lá! Como aconteceu sua inserção na música eletrônica? Nela, você sempre esteve mais inclinado à introdução dessa linha de ritmos mais brasileiros?

Olá, pessoal. Prazer é meu, obrigado pelo convite. Eu, na verdade, demorei a me interessar por música eletrônica. Adolescente, escutava basicamente punk rock, indie, new wave, post-punk. Tocava guitarra em algumas bandas e custei a me interessar pelo som de baterias eletrônicas e synths - apesar de que, criança, adorava quando meus pais escutavam Madonna, New Order, Ed Motta... Comecei a me interessar por disco music quando surgiu o LCD Soundsystem e a DFA Records uns 15 anos atrás. Descobri que disco music era muito mais próxima do punk do que eu achava. E daí para a dance music e toda sua cultura foi um só um passo. Música brasileira eu sempre apreciei, minha mãe escutava bastante em casa, mas só fui pegar a adicção pelo digging mesmo quando virei DJ a sério. Comecei a ir atrás de um repertório que me diferenciasse dos outros DJs e mergulhei no mundo dos discos, no digging da vida real. Como moro no Brasil, a maioria dos achados é música brasileira. Amo nossa música, mas a razão de boa parte do meu repertório ser daqui é mais geográfica do que qualquer outra coisa. Não encontramos muitos discos internacionais diferentes por aqui. Por isso que sempre que viajo volto carregado de discos.

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Como se deu esse encontro entre você e o Augusto Olivani (Trepanado)? Tem a ver com o fato de serem da mesma profissão antes das pick-ups (ambos jornalistas)? E, já entrando no quesito jornalístico da coisa, você acha que a profissão influencia(ou) em sua atuação como músico e pesquisador?

Eu e Augusto nos conhecemos quase 10 anos atrás, através do Kiko Costato, amigo em comum, também jornalista e DJ. Kiko chamou uns amigos que tocavam para a casa dele e eu e Augusto clicamos musicalmente de imediato. Eu conhecia várias tracks que ele havia trazido e vice-versa. Na época, me sentia meio solitário na minha pesquisa na cidade. Sobre a ligação entre jornalismo e DJ/pesquisador, acho que ela existe e faz todo o sentido. Há vários jeitos de ser DJ hoje em dia, vários tipos de DJs que você pode ser: às vezes a pessoa produz super bem, e/ou tem uma técnica diferente, faz um live interessante... Eu tento trazer faixas desconhecidas para a pista que, ao mesmo tempo, fazem as pessoas se sentirem como se sempre tivessem conhecido elas. É o sentimento que tenho quando descubro uma faixa que amo muito. Acho que essa é a principal coisa que tenho para oferecer enquanto DJ. Então existe essa investigação, depois tem a edição, que envolve elencar essas faixas em uma determinada ordem, às vezes mexer nelas e cortar/estender alguma parte, fazendo um re-edit e, por fim, a comunicação, missão principal de um jornalista e de um DJ, na minha opinião.

Foto: via Facebook

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No início da festa Selvagem, já estava em alta a procura por festas eletrônicas? Como foi a aceitação do público quando vocês apresentaram uma proposta com mais brasilidades e bpm mais baixo?

No começo da festa, na verdade, as festas eletrônicas não estavam tão em alta em São Paulo ainda. Foi o período de transição entre os grandes clubs e as festas na rua em locais alugados, na rua etc. A Voodoo, a festa do momento, tinha um som eletrônico, mas rolava de tudo, a inspiração musical na época era a festa Optimo (Espacio) de Glasgow, onde o Thomas, fundador da Voodoo havia morado antes de se mudar pro Brasil. Talvez no começo a gente até tocava um som mais pesado no Paribar, mas as pessoas preferiam disco, funk, balearic, coisas mais solares. Hoje parece que a coisa se inverteu, o techno dominou geral e esses sons são mais underground de certa forma, tem menos seguidores.

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O Selvagem foi um dos primeiros duos de brasileiros a tocar no Dekmantel e sabemos a quão repercutida é, até hoje, a apresentação de vocês. Como aconteceu essa ponte com o festival?

Acho que a relação com o Dekmantel começou quando os fundadores do festival foram a uma Selvagem de Carnaval uns três anos atrás, levados pelos caras do Gop Tun. Acho que eles gostaram do que viram. Depois tocamos em um showcase do label no Rio e depois no Boiler Room e nas versões brasileiras. Ano seguinte tocamos no palco Selectors em Amsterdam e eu toquei duas vezes sozinho no Lente Kabinet, outro festival da marca. 

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Impossível fugir à essa pergunta: quais caminhos e projetos o levaram a seguir a uma carreira solo no ano de 2019?

Mais que tudo, uma vontade de tocar sozinho e conduzir os sets como eu quiser. Estava também um pouco cansado de produzir festas com o tamanho que a Selvagem ficou.

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O que há de Selvagem, atualmente, nas suas apresentações?

A Selvagem me ensinou quase tudo que sei sobre discotecar. A começar uma festa devagar, com o volume mais baixo, para trazer as pessoas mais pra perto. A não ter medo de arriscar e passear entre estilos. A acreditar nas faixas que você gosta e jogar elas pra pista. 

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Eventualmente você toca músicas nacionais que mesmo brasileiros não estão acostumados a ouvir. Claro que, não queremos o caminho das pedras, mas, como você costuma fazer seu processo de pesquisa? Em sebos, na internet...?

O grosso é feito na vida real, indo em sebos e lojas de discos e escutando tudo que não conheço. 99% é porcaria, mas às vezes aparece alguma faixa que faz tudo valer a pena. Hoje pesquiso muito no Youtube também, tem canais de diggers do mundo todo incríveis. Claro, também roubo um pouquinho dos meus DJs preferidos e, às vezes, troco discos e rips (digitalizações de discos) com eles.

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Outro grande destaque de sua carreira junto ao Selvagem foi a apresentação no Dekmantel São Paulo 2017 junto à Maria Rita Stumpf após um hiato de quase 30 anos da cantora. Como se deu esse processo? O contato com ela, até o desenvolvimento dessa ideia que resultou no relançamento do álbum "Brasileira" e também na gravação do documentário?

O álbum Brasileira é de 1989 e foi ele a razão de irmos atrás da Maria Rita. Augusto descobriu uma das faixas com um amigo DJ e colecionador e depois encontrou o disco em uma galeria em São Paulo. Um dia, por uma coincidência cósmica, conversando com meu pai descobri que a Maria havia sido chefe dele por anos em uma produtora cultural no Rio e que eu, na verdade, conheci ela quando era criança. Só não sabia que ela era cantora e havia gravado um disco no fim dos anos 80. Daí foi fácil. Meu pai tinha o contato dela, encontramos com ela e relançamos o disco pelo selo Selva Discos. O documentário foi feito para divulgar o lançamento e apresentar a Maria para mais gente. 

Como é a recepção da nossa música no exterior? Você tem a percepção de que o retorno é melhor lá do que aqui?

É mais fácil às vezes tocar música brasileira lá fora sim. O povo aqui, especialmente da música eletrônica, torce o nariz para música nacional, ainda mais dos anos 80 e 90, minha especialidade e paixão. Esse som é muito bem aceito lá fora.

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E para finalizar, você pode nos dizer as cinco melhores músicas, as que você gosta sempre de ter na manga?

Aff. Pergunta mais difícil possível! Muda o tempo todo. Hoje em dia tenho tocado muito essas aqui:

- Pablo Toto - Ylê Que Rico
- Nsue - Rebelde Silueta
- Corporation Of One - So Where Are You
- Jacky Ferreira - Eu Já Não Sei (Instrumental)
- Kutchi Kutchi - Não Morra de Ciúme (Vocal Version)


Foto: Luara Calvi Anic


*Foto do cabeçalho via Facebook do artista